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Perigo dos telemóveis e redes sociais na adolescência

A CNN publicou um artigo muito interessante e esclarecedor sobre a forma como o uso de telemóveis - e em particular das redes sociais - estão a afetar a saúde mental dos jovens, a propósito do livro mais recente lançado pelo psicólogo Jonathan Haidt.


O seu novo livro “The Anxious Generation: How the Great Rewiring of Childhood Is Causing an Epidemic of Mental Illness” [A Geração Ansiosa: como as novas ligações da infância estão a causar uma epidemia de doenças mentais, em tradução livre] apela, essencialmente, a uma revolução na forma como os pais gerem o uso dos telemóveis e das redes sociais dos adolescentes.


Haidt defende que as crianças deviam ter pouco ou nenhum acesso a ambos antes de fazerem 16 anos.


O principal argumento do livro é que protegemos em demasia as nossas crianças no mundo real, acabando por deixá-los pouco protegidos online. E nestas duas facetas, é possível ver que o fizemos pensando que ficaria tudo bem. Estávamos errados nos dois aspetos.

Trata-se de uma perspetiva consolidada por vários anos de pesquisa – investigações que retratam as crescentes lutas de adolescentes e pré-adolescentes americanos no campo da saúde mental, bem como estatísticas que indicam que muitos adolescentes nos Estados Unidos da América se encontram já, de alguma forma, deprimidos ou ansiosos.



A CNN conversou com o autor sobre a sua pesquisa, sobre o seu livro e sobre o que devem pais e jovens esperar daqui em diante.


CNN: Como é que nos metemos nesta situação?


Jonathan Haidt: As crianças sempre tiveram infâncias à base de jogos e brincadeiras. Contudo, de uma forma gradual, fomos deixando que isso desaparecesse, devido aos nossos medos de raptos e de outras ameaças que existiam nas décadas de 1980 e 1990. A tecnologia foi o que surgiu para preencher esse tempo. Nos anos 1990, pensávamos que a Internet iria salvar a democracia. E que iria tornar os nossos filhos mais inteligentes. Como muitos de nós eram otimistas em relação à tecnologia, não tivemos consciência quando os nossos filhos começaram a passar quatro, cinco, seis, e agora sete a nove horas, por dia nos seus telemóveis e noutros ecrãs.


CNN: Esta crise de saúde mental afecta rapazes e raparigas de maneira diferente?


Haidt: O facto fundamental no que respeita às diferenças de género é que, quando toda a gente passou a ter telemóvel na década de 2010, os rapazes se viraram para os jogos, para o Youtube e para o Reddit, enquanto as raparigas se dedicaram mais a redes sociais com uma forte componente visual, especialmente o Instagram, o Pinterest e o Tumblr.


A segunda diferença é que as raparigas partilham mais as suas emoções do que os rapazes. Falam mais dos seus sentimentos e estão mais abertas umas para as outras. Os níveis de ansiedade das raparigas dispararam neste período (pré-adolescência e adolescência), à medida em que passaram a estar extremamente conectadas através das redes sociais.


A automutilação é, historicamente, uma das formas que algumas raparigas utilizam para lidar com a ansiedade – e essas taxas também aumentaram no início da década de 2010. Antes, a automutilação não era algo que as jovens de 12 e 13 anos fizessem, era mais comum nas raparigas mais velhas. Nessa década, as idas às urgências por automutilação em raparigas dos 10 aos 14 anos praticamente triplicaram. É um dos maiores aumentos nos marcadores de doença mental que identificámos em todos os dados que analisámos.


CNN: Disse que estamos num momento crítico desta crise. Porquê?


Haidt: Penso que este ano é um momento crítico por vários motivos. Em 2010, o debate estava a começar. Depois aconteceu a pandemia de covid-19, o que tornou mais negras as perspetivas anteriores. Agora, que já passaram alguns anos desde a covid-19, desde o fecho das escolhas, desde as máscaras, tornou-se mais claro para todos que as crianças não estão bem. E os dados sobre as taxas de doença mental mostram-nos que a maioria do crescimento teve lugar muito antes da chegada da covid-19.


Hoje em dia, nas famílias de toda a América, uma das maiores e mais prevalentes dinâmicas é a luta com a tecnologia. O que apurei desde o lançamento do meu livro é que quase toda a gente sabe que existe um problema. Os pais estão desesperados. Sentem que não há como dar a volta. Dizem-me ‘Não é possível voltar a pasta de dentes de volta na embalagem, pois não?”. Ao que eu respondo: “Se é realmente necessário, consegue fazê-lo”.


Quando olhamos para os danos na saúde mental dos adolescentes, quando vemos os aumentos na automutilação e no suicídio, quando vemos a diminuição das notas nos testes desde 20212 nos Estados Unidos e em todo o mundo, penso que é preciso fazer alguma coisa. O meu livro fornece uma análise clara dos múltiplos problemas da nossa ação coletiva e apresenta quatro formas simples de os resolvermos.


CNN: Quais são então os caminhos para resolver esta crise?


Haidt: Primeiro: Nada de telemóveis com ligação à Internet antes do ensino secundário. Devemos eliminá-los do ensino primário e básico. Apenas devemos deixar as crianças terem acesso a um telemóvel daqueles simples, que só dão para fazer chamadas, ou um relógio que permita essas ligações, quando se tornarem independentes.


Segundo: Nada de redes sociais até aos 16 anos. Estas plataformas não foram feitas para crianças. Elas são particularmente prejudiciais para as crianças. Devemos ter uma proteção especial na fase inicial da puberdade, porque é aí que acontecem os danos mais gravosos.


Terceiro: Escolas sem telemóveis. Não há, de facto, qualquer argumento para deixar as crianças terem nos seus bolsos, durante as horas de aulas, aqueles que são os maiores dispositivos de distração alguma vez inventados. Se tiverem telemóveis, vão enviar mensagens durante as aulas, vão focar-se nestes aparelhos. Se não tiverem telemóveis, vão começar a ouvir os professores e a passar tempo com outras crianças.


Pode aceder ao artigo na íntegra aqui.



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